A indústria de software brasileira é maior do que costuma aparecer no noticiário e está concentrada em lugares que pouca gente olha. Os dados mais recentes da ABES e da Brasscom ajudam a entender três coisas: o tamanho do mercado, quem produz e, principalmente, quem compra. A última resposta surpreende quem não é do setor: o maior comprador de software e serviços do país é o setor financeiro.
Todos os números abaixo têm fonte e ano indicados. Onde o dado vem de reportagem sobre o estudo, e não do estudo em si, isso está dito.
O tamanho do mercado
Segundo o estudo Mercado Brasileiro de Software: Panorama e Tendências 2026, da ABES com metodologia da IDC, o Brasil investiu US$ 67,8 bilhões em tecnologia da informação em 2025, o que coloca o país como o 10º maior mercado de TI do mundo. O crescimento no ano foi de 18,51%, e a projeção da própria ABES para 2026 é de 5,31%.
Dentro desse total, o recorte de software e serviços somou US$ 35,4 bilhões em 2025, segundo a cobertura do estudo pelo portal Coletivo Tech. Na América Latina, o Brasil responde por 38,4% do mercado de TI da região, de acordo com a mesma edição do estudo, citada pelo The Shift.
Olhando o macrossetor de tecnologia da informação e comunicação como um todo, a Brasscom mediu que ele representou 6,5% do PIB brasileiro em 2024, com produção de R$ 762,4 bilhões e 2.100.886 empregos formais.
| Indicador | Valor | Ano | Fonte |
|---|---|---|---|
| Investimento total em TI | US$ 67,8 bilhões (10º do mundo) | 2025 | ABES/IDC |
| Crescimento do mercado de TI | 18,51% | 2025 | ABES/IDC |
| Software e serviços | US$ 35,4 bilhões | 2025 | ABES/IDC, via Coletivo Tech |
| Participação do Brasil na América Latina | 38,4% | 2025 | ABES/IDC, via The Shift |
| Macrossetor TIC no PIB | 6,5% | 2024 | Brasscom |
| Empregos formais em TIC | 2.100.886 | 2024 | Brasscom |
Quem produz: uma indústria de empresas pequenas
O setor de software e serviços reúne 41.613 empresas, segundo a edição 2026 do estudo da ABES citada pelo Coletivo Tech. O perfil é de pulverização: 62,5% são microempresas e 31,8% são pequenas. Médias e grandes somam menos de 6% do total.
Esse retrato tem uma consequência prática para quem contrata. A maior parte das empresas que desenvolvem software no país é pequena, especializada em um nicho e depende de poucas pessoas-chave. Isso não é defeito — especialização costuma ser vantagem —, mas aumenta a importância de perguntas que o comprador às vezes pula: quem mais conhece o sistema além do desenvolvedor principal, como o conhecimento é documentado, o que acontece se a relação terminar.
Há também uma divisão antiga dentro dessa indústria entre quem vende produto (as software houses, com sistemas prontos para muitos clientes) e quem constrói sob encomenda (as fábricas de software, que desenvolvem o sistema específico de um cliente). Nos estudos da ABES, o software sob encomenda aparece dentro do grupo de software desenvolvido no país. O recorte mais recente que encontramos com essa separação é de 2019, quando o software desenvolvido no país — sob encomenda incluído — respondia por 28,5% do investimento total em software, segundo o estudo citado pelo portal Capital Digital. O restante era, em grande parte, software pronto importado.
Quem compra: o setor financeiro na liderança
Aqui está o dado mais relevante para entender a indústria. Segundo a ABES, o setor financeiro respondeu por 25,41% de todo o investimento em software e serviços no Brasil em 2025 — US$ 8,99 bilhões —, sendo o maior comprador do país. Na sequência vêm serviços e telecomunicações (24,3%) e indústria (19,5%).
Não é difícil entender por quê. Banco, cooperativa de crédito, fintech, administradora de consórcio e seguradora vivem de processar informação com precisão, velocidade e rastreabilidade. O produto dessas instituições é, em boa parte, software. E elas operam sob supervisão: cada mudança regulatória — um novo arranjo de pagamento, uma nova regra de registro, um novo requisito de segurança — vira demanda de desenvolvimento.
Esse peso tem um efeito menos visível. Os requisitos que o setor financeiro é obrigado a cumprir — trilha de auditoria, segregação de ambientes, controle de acesso, continuidade, plano de saída de fornecedor — formam uma escola de engenharia. Fornecedores que passaram por avaliação de risco de instituições supervisionadas tendem a construir de outro jeito, inclusive quando o cliente é de outro setor. Detalhamos esses requisitos em fábrica de software para instituições financeiras.
O gargalo: gente
O crescimento esbarra em um limite conhecido. Levantamento da Brasscom citado pelo IT Fórum aponta demanda de 665 mil profissionais de tecnologia no período de 2019 a 2024 para 464 mil formados — um descompasso de cerca de 30%.
Para as empresas compradoras, o efeito aparece de duas formas. Montar time interno fica mais lento e mais caro, porque a disputa por profissionais experientes é grande. E cresce a dependência de fornecedores externos — o que torna mais importante escolher bem o modelo de contratação. A diferença entre alocar profissionais e contratar uma fábrica de software que responde pela entrega está explicada em fábrica de software, software house ou time interno.
O que os números dizem para quem vai contratar
- Há oferta, mas pulverizada. Com mais de 40 mil empresas, o desafio não é encontrar fornecedor; é separar quem tem processo e histórico de quem depende de uma ou duas pessoas.
- Software sob medida é uma fatia menor e mais especializada. A maior parte do dinheiro vai para produto pronto. Quando o seu processo não cabe em produto, você está no segmento em que a qualidade do fornecedor varia mais.
- A régua do setor financeiro é uma referência útil. Mesmo fora dele, perguntar a um fornecedor como ele trata trilha, segregação e plano de saída é um bom filtro.
- Escassez de gente favorece contratos com responsabilidade clara. Quando o mercado de trabalho está apertado, pagar por entrega costuma ser menos arriscado do que pagar por hora e gerenciar a rotatividade.
A GlassAuto é parte desse recorte: uma fábrica de software que formou sua engenharia em sistemas financeiros em produção desde 2018, em cooperativas dos sistemas Sicredi e Cresol, e leva essa disciplina para operações críticas de outros setores.
Fontes
- ABES — Mercado Brasileiro de Software: Panorama e Tendências 2026 (dados de 2025).
- ABES — Setor financeiro lidera investimentos em software e serviços no Brasil.
- Coletivo Tech — cobertura do estudo ABES 2026 (software e serviços; número e porte das empresas).
- The Shift — cobertura do estudo ABES/IDC (participação na América Latina).
- Brasscom — relatório setorial do macrossetor TIC (dados de 2024).
- IT Fórum — déficit de profissionais de TI, com dados da Brasscom.
- Capital Digital — participação do software desenvolvido no país (dados de 2019).